“São Lourenço foi um dos santos mais venerados pela Antiguidade cristã e pela Idade Média: sua basílica em Roma, por importância, vem logo depois das Basílicas de São Pedro e Paulo: ela tem o privilégio do altar papal, onde só o Sumo Pontífice pode celebrar. Por que tanta devoção a este mártir? A coragem e o bom humor de que deu tantas provas no processo e no martírio impressionaram vivamente a piedade e imaginação popular. Como os grandes heróis da Antiguidade, ele foi cantado por grandes poetas, como Prudêncio e Dante na Divina Comédia, assim como foi representado por obras-primas de pintura”¹.
Lourenço foi diácono da Igreja Romana, martirizado na perseguição do imperador Valeriano que, com seus editos, mandou fechar e confiscar todos os lugares de culto e os cemitérios cristãos e punir com exílio ou a morte os dirigentes das comunidades cristãs.
Lourenço foi o primeiro dos diáconos que assistiam ao papa em suas funções na celebração dos divinos mistérios, na distribuição da Eucaristia e na administração dos bens da Igreja.
A igreja, com efeito, tinha uma caixa comum, proveniente de esmolas e da administração dos cemitérios, que usava para socorrer os pobres, os órfãos e as viúvas. Por uma carta do Papa Cornélio, sabemos que a Igreja sustentava no século III, em Roma, mais de 1500 pobres. Por isso, quando na perseguição de Valeriano o Papa Sisto II foi preso e martirizado, o prefeito da cidade prendeu imediatamente a Lourenço e exigiu que entregasse as riquezas da igreja. “Dá-me um prazo”, teria respondido Lourenço, “e as entregarei”. Foram concedidos três dias. Foi o tempo necessário para que Lourenço reunisse no átrio os órfãos, os cegos, os coxos, as viúvas, os velhos… todos os que a Igreja socorria; então, chamando o prefeito, disse-lhe: “Aqui tens os tesouros da Igreja!”
Vendo-se assim iludido, o prefeito prorrompeu em raiva furiosa: “É assim que te atreves a zombar da autoridade romana? Miserável, se teu desejo é morrer, pois bem, hás de morrer, mas de morte longa e cruel”. Deu então ordem para que Lourenço fosse cruelmente açoitado e, ainda por outros modos, atormentado. Finalmente, mandou que trouxessem uma grelha, que foi posta sobre brasas. O santo diácono foi despido e colocado sobre a grelha. O semblante ardia-lhe de fogo divino. Tendo sofrido por algum tempo este horrível martírio, Lourenço, com um sorriso nos lábios, disse ao juiz: “Se quiserdes, podereis me virar, visto que deste lado já estou assado”. E pouco depois: “Agora, o meu corpo está completamente assado, pronto para ser comido”. E, continuando a rezar pelo bem da Igreja, pela paz do mundo, sereno e confiante, exalava seu espírito: era o dia 10 de agosto de 258.
Seu corpo totalmente queimado foi levado em triunfo e sepultado no cemitério cristão de Verano, onde surgiu a célebre basílica dedicada em sua honra. Mais outras sete Igrejas foram erguidas na Cidade Eterna em louvor ao grande mártir, cujo nome entrou no cânon da santa missa, privilégio reservado a pouquíssimos santos. E nós concluímos esta memória de São Lourenço com a oração da missa: “Ó Deus, o vosso diácono Lourenço, inflamado de amor por vós, brilhou pela fidelidade no vosso serviço e pela glória do martírio; concedi-nos amara o que ele amou e praticar o que ele ensinou. Amém!”
¹ Pe. Luís Palacín. Santos do atual calendário litúrgico. São Paulo, Ed. Loyola, 1982, p. 22
Fonte: Dom Servilio Conti, I.M.C. op. Cit., p. 344



